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	<title>Rede Ultra &#187; coluna invertebral</title>
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	<description>Informação, Reflexão e Credibilidade.</description>
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		<title>Estouros de um Domingo a Noite</title>
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		<pubDate>Mon, 18 Aug 2008 19:32:33 +0000</pubDate>
		<dc:creator>colunainvertebral</dc:creator>
				<category><![CDATA[Uncategorized]]></category>
		<category><![CDATA[coluna invertebral]]></category>

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		<description><![CDATA[Um domingo qualquer. Final de noite. Antes que a musiquinha de entrada do telejornal da Globo começasse a tocar anunciando o início do último bloco, ela se levantou rapidamente, foi quicando desgovernada até a cozinha e começou a colocar sua idéia em prática.
Sem cerimônia alguma, acendeu uma das bocas encardidas do fogão engordurado, abaixou-se, apanhou [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Um domingo qualquer. Final de noite. Antes que a musiquinha de entrada do telejornal da Globo começasse a tocar anunciando o início do último bloco, ela se levantou rapidamente, foi quicando desgovernada até a cozinha e começou a colocar sua idéia em prática.</p>
<p>Sem cerimônia alguma, acendeu uma das bocas encardidas do fogão engordurado, abaixou-se, apanhou uma panela debaixo da pia e a colocou sobre as chamas azuladas alimentadas pelo botijão de gás que fora trocado logo após o almoço. Começou quase que imediatamente a ter pensamento eróticos inspirados pelo alumínio que esquentava sem mais delongas bem ali.</p>
<p>Correu até a geladeira em uma tentativa desesperada de se livrar daqueles pensamentos pecaminosos, indignos de uma serva do senhor como ela. Abriu a porta e pôs a mão no pote de margarina, daquelas “com sal”, e foi como se uma mangueira de álcool jorrasse em uma fogueira de S. João. Sim, a margarina. Deslizando pelo seu corpo, lambuzando suas nádegas arrojadas e escorrendo por suas curvas perigosas, do pescoço à cintura, da cintura ao quadril, do quadril à ponta da unha encravada do dedão do pé.</p>
<p>Meteu a colher no pote e tascou a margarina no fundo da panela quente. A substância bateu e imediamente começou a derreter e a fluir pelos cantos. Deus. Como ela adorava esse tipo de coisa: ardente e violenta. Enquanto tinha esses delírios pecaminosos o suor que brotava da testa imediatamente umedeceu as axilas, o cangote, a vagina. Escorreu pela perna e arrepiou a pele do tornozelo.</p>
<p>Minutos depois começou a arrebentação, o tiroteio, o desfile abundante de pipocações que a deixava com as pernas bambas. Ah, os homens que não teve! Nenhum deles jamais saberia o que perderam esses anos todos. Nenhum deles sequer poderia imaginar que ela era esse vulcão prestes a causar uma hecatombe tal qual a panela de pipocas balangando com a força de uma metralhadora e da pressão interna.</p>
<p>A uma certa altura dos acontecimentos, enrolou as mãos em dois panos úmidos e frios, segurou com força o cabo rijo e apoiou na lateral. Estremeceu. Respirou fundo e se preparou. Em seguida, começou a mexer a panela, no começo de forma mais delicada e suave que foi passando do moderado à batidas ritmadas e violentas. Não resistiu e entrou na dança, requebrando pela cozinha num dobrar e esticar de joelhos com a coisa toda pipocando dentro do recipiente culinário em suas mãos, aquecido pelo calor do fogo e da energia que brotava de suas ventas. Do prédio ao lado, via-se apenas um vulto sorumbático encoberto pela cortina da cozinha, como se fosse a silhueta da própria Madonna embalando uma multidão com seu “Like a Virgin”.</p>
<p>A última vibração foi como o detonar de um rojão, marcando o início do fim de uma erupção monte-vesuviana e o choque estraçalhante do produto branco em uma vasilha de plástico. As pipocas estavam prontas e ela, exausta. Sentou-se ofegante de volta no sofá. A canção final do jornal da noite de domingo pontuando precisamente o término de algo e começo de outro: no caso, o filme das dez e meia.</p>
<p>E ela ali, na sala, acompanhada da mais silenciosa das solidões da meia-idade. Vez ou outra, um grilo cantava lá fora ou uma moto de escapamento estourado passava na rua. Fora isso, nada mais, só a sua eterna castidade e as intermináveis bacias de pipocas marinadas na manteiga.</p>
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		<title>Mesa de Bar</title>
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		<pubDate>Mon, 04 Aug 2008 13:39:35 +0000</pubDate>
		<dc:creator>colunainvertebral</dc:creator>
				<category><![CDATA[Uncategorized]]></category>
		<category><![CDATA[coluna invertebral]]></category>

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		<description><![CDATA[Sábado à noite em um bar qualquer de um bairro nobre da capital. Dois homens de meia idade, amigos desde a adolescência, chegaram naquela fase da embriaguez na qual a sinceridade começa a virar uma coisa meio perigosa.
- Zabe aquela lôra de zói craro que bocê dava em zima no sssssegundo grau?
- A Gezzzelene?
- Sssssimmm, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Sábado à noite em um bar qualquer de um bairro nobre da capital. Dois homens de meia idade, amigos desde a adolescência, chegaram naquela fase da embriaguez na qual a sinceridade começa a virar uma coisa meio perigosa.</p>
<p>- Zabe aquela lôra de zói craro que bocê dava em zima no sssssegundo grau?<br />
- A Gezzzelene?<br />
- Sssssimmm, a Xezzzelene&#8230;<br />
- Que tem?<br />
- Beijei ela atrazz do buro da isssscola&#8230;<br />
- &#8230;<br />
- Hehehe!<br />
- Eu nem gossstava dela mezzzmo! Bocê sssabe aquela zua embregadinha que começou a drabalhar na ssua cazza logo quando focê gazzzou?</p>
<p>- Sei, sei&#8230; hehehehe&#8230; Eu comi ela duas fezes&#8230;<br />
- Eu comi quatro, ahá, há, há!<br />
- Mentirozzzzzzzo! Bas tudo bem&#8230; eu catei a zua sssecretária em cima da sssssua mesa, lá no sssseu escritório!<br />
- Bem que eu vi que a besssa tava xuja&#8230;<br />
- Ahá, há, há!<br />
- Mas eu tenho uma&#8230; uma&#8230; fonfissão a facer: perdi a firgindade com a zua bãe&#8230; ahá, há, há!<br />
- &#8230;<br />
- Ahá, há, há!<br />
- Focê dão berdeu, dão!<br />
- Perdi zzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzim&#8230;<br />
- Vou te partir a cara!<br />
- Fai dada!!! Eu fi focê cum minha irmã duas fezes!<br />
- Foram quatro. E uma fez eu fiz ela mulher no zeu quarto, enquanto vozê tomava banho&#8230;<br />
- Arre!<br />
- E foram com as suazzzz duas irbãs&#8230; AHÁ, HÁ, HÁ!<br />
- Zzzzeu credino!!!<br />
- Ic! Dezzzzculpa, cara&#8230; num deu pra sssssegurar!!<br />
- Zzzzzzem pobrema&#8230; eu já comi a sua essssssssssspozzzzaa&#8230;<br />
- Que?!<br />
- Te fiz corno&#8230; me berdoa?<br />
- &#8230;<br />
- Cê é quem nem um irmão bá mim, cara. Focê zabe dissssso.<br />
- Então be abraça! Fffffem cá!<br />
- Fffffuiiii&#8230;<br />
- Te berdôou se focê be berdoar!<br />
- Dá perdoado. Focê roubou minha carteira de noffffo?<br />
- Dão. Eu trepei com zua amante.<br />
- &#8230;<br />
- Ic!!<br />
- Zeu&#8230; Zeu&#8230;<br />
- Te ffffiz corno duas fezes&#8230; hihihi&#8230; ganhei!<br />
- Focê não fez isso cobigo!!<br />
- Fffffizzz&#8230; bocê me apresentou ela&#8230; comi&#8230;<br />
- Patiffffffe!<br />
- Ic!<br />
- Focê&#8230; focê me magoou agora&#8230;<br />
- Ffffem cá&#8230; ffffai pazzar&#8230; be abraça&#8230;<br />
- Fou te partir cara!<br />
- Ó&#8230; Ssssshhhh!!! Sshhhhh&#8230; faz izcândalo, dão&#8230; Ssshhhhhhh&#8230;<br />
- Mas ó&#8230; isso fica azim, não&#8230; pensssa que eu parei da sua esssposa?<br />
- Que?!<br />
- Pensou, né? Hihihihihihi&#8230; IC!! Parei, dão&#8230; fffffui alémmmmmmm&#8230;<br />
- Foi é?<br />
- Zzzzim!<br />
- Fode me falar! Fode! Ffffffala azora!<br />
- Focê tá preparado?<br />
- Ffaaala&#8230; tô peprarado! Zzzzzzzzzzzzzzzzzzz&#8230;.<br />
- Comi zuas filhas.<br />
- !!!<br />
- Zim. As drês. Masó&#8230; sssou seu amigão do feito&#8230; zzzzzz&#8230;<br />
- &#8230;<br />
- Ffffala alguma coisa, pô! Quié? Fai me batê??<br />
- &#8230;<br />
- Bate aquió&#8230; aqui&#8230; na caaaa-raaa&#8230; Zzzzzzzzzzz&#8230;<br />
- Vozê tá mentindo.<br />
- Num tô não. Hehehehe&#8230; falei que eu tinha ganhado?<br />
- Vozê tá mentindo.<br />
- Diacho! Ffffalei que não, pombazzzz!<br />
- Vozê tá, zim. Eu só tenho filho hômi. Trezzzzzzzzz&#8230;<br />
- Ups&#8230; Comi&#8230;</p>
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		<title>Alô?! A Sildelene, por favor?</title>
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		<pubDate>Tue, 22 Jul 2008 13:41:32 +0000</pubDate>
		<dc:creator>colunainvertebral</dc:creator>
				<category><![CDATA[Uncategorized]]></category>
		<category><![CDATA[coluna invertebral]]></category>

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		<description><![CDATA[Três longos meses já haviam se passado. Noventa dias inteiros desde a intalação do seu novo telefone, que ficava reluzindo ali, em cima da mesinha de centro da sala e que, quando tocava, emitia luzes pirotécnicas e os patinadores artísticos começavam a dançar ao som de “I’ll Survive”.
Ok, ok. Era meio gay, ele já sabia [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Três longos meses já haviam se passado. Noventa dias inteiros desde a intalação do seu novo telefone, que ficava reluzindo ali, em cima da mesinha de centro da sala e que, quando tocava, emitia luzes pirotécnicas e os patinadores artísticos começavam a dançar ao som de “I’ll Survive”.</p>
<p>Ok, ok. Era meio gay, ele já sabia disso. Mas optou por ser o “S” da antiga sigla que denominava o movimento mais na moda da atualidade. Enfim. Coisas dele, quem vai discutir, você? Então pague as contas dele, poxa.</p>
<p>O fato é que, desde o inicio do funcionamento da nova linha que vira-e-mexe o aparelho tocava e, assim que era atendido, uma voz aleatória perguntava do outro lado:</p>
<p>- Alô?! Queria falar com a Sildelene, por favor.<br />
- Oi. É da casa da Sildelene?<br />
- Alou?! Srta Sildelene, sim?</p>
<p>Tecnicamente, essa confusão era compreensível. Afinal, aquele mesmo número de telefone poderia ter sido dessa tal moça, que vez ou outra alguém ligava procurando e que, depois da devida informação de que não havia ninguém naquela casa com aquele nome, as chamadas cessariam pouco a pouco.</p>
<p>Pois é. Mas não foi assim que a carroça andou. Passados três meses a coisa foi ficando preocupante porque as vozes anônimas foram ganhando adjetivos. E, quando um substantivo próprio ganha um adjetivo logo depois, é sinal de que a coisa está ficando feia. Se o adjetivo vier antes, pior ainda:</p>
<p>- Alô?! Quero falar com essa vaca da Sildelene!</p>
<p>Em uma das ocasiões, após a explicação costumeira de que aquele número de telefone não era mais dela e sim agora dele, as pessoas insistiam:</p>
<p>- Que que é, mané? Chama essa otária antes que eu apareça aê e sente a porrada em todo mundo, sacumé?!</p>
<p>As chamadas começaram a acontecer tarde de noite. De madrugada. Não tinha mais hora para o aparelho tocar, os patinadores deslizarem e “I’ll Survive” encher o pequeno apartamento com sua melodia de arco-íris rebelde.</p>
<p>- Oi, moço. Chama a Sildelene para mim? Por favor! Diga que é a mãe dela.</p>
<p>Caramba! Nem a mãe essa talzinha tinha avisado da mudança de telefone?! Mas já tinha agora mais de dezoito meses que a linha era dele. Dezoito meses e esse inferno de atender as ligações da Sildelene não parava! Todo tipo de gente já tinha acordado o pobre novo dono do número telefônico a essa altura dramática dos fatos: O S.P.C., as Lojas Marisa, o telemarketing do cartão de crédito, a amiga de infância, uns quatro ex-namorados bastante autoritários, umas quatro atuais namoradas dos ex bem furiosas e agora a mãe da Sildelene. Sildelene, Sildelene, Sildelene. Não aguentava mais ouvir esse bendito nome assim que atendia o telefone nas madrugadas da vida:</p>
<p>- Viu? Sildelene taí? Queria falar com ela.</p>
<p>Aaaaaaahh! Coisa mais irritante! A gota d’água foi em uma determinada noite, logo depois da novela das oito, enquanto ele escovava os dentes e esperava sua namorada ligar. O telefone tocou e dele veio o fatídico estopim: uma bicha ligou aflita afim de fazer confidências.</p>
<p>- Ai, querido&#8230; Bofe, sei lá quem é você, gato, mas me chama aê a Sildelene?</p>
<p>A mesma ladainha: “aqui não tem nenhuma Sildelene, você ligou no número errado, esse telefone agora é meu, não sei qual o novo número, não sei nem quem é ‘Sildelene’, não, não posso te ajudar”. Que fez a bicha, então? Pediu para ele convidá-la para sair. Francamente&#8230;</p>
<p>No outro dia, assim que acordou ligou para a companhia interestadual de telefones, reclamou para burro e depois exigiu a mudança imediata do número. Pediram sete dias úteis para que a mudança acontecesse. Nove dias depois o número era outro.</p>
<p>Nas altas hora da madrugada daquele mesmo dia tirou o fone do gancho, discou rapidamente vários números, esperou e,assim que uma voz sonolenta do outro lado da linha atendeu, ele proferiu as palavras como se cuspisse caroços de abacates inteiros da boca:</p>
<p>- Alô?! Eu poderia falar com a Sildelene?</p>
<p>Desligou na cara. A satisfação crescendo no peito e explodindo num largo sorriso pela cara. A partir daquele momento ele deixara de ser diferente e passara a fazer parte da grande massa de pessoas interessadas em falar com a Sildelene.</p>
]]></content:encoded>
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		<title>Um é pouco, dois é bom, três é um horror!</title>
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		<pubDate>Mon, 07 Jul 2008 13:44:16 +0000</pubDate>
		<dc:creator>colunainvertebral</dc:creator>
				<category><![CDATA[Uncategorized]]></category>
		<category><![CDATA[coluna invertebral]]></category>

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		<description><![CDATA[Se havia algo que pudesse ser chamado de “consenso geral da nação” era o relacionamento daqueles dois. Não havia uma só alma em todo o hemisfério sul que não dissesse que ele e ela foram feitos um para o outro.
De fato. Era um tal de tchululuca dali, um moronzão daqui, uma sinisininha dacolá e um [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Se havia algo que pudesse ser chamado de “consenso geral da nação” era o relacionamento daqueles dois. Não havia uma só alma em todo o hemisfério sul que não dissesse que ele e ela foram feitos um para o outro.</p>
<p>De fato. Era um tal de tchululuca dali, um moronzão daqui, uma sinisininha dacolá e um jujumuzão de volta que chegava a dar nos nervos. Ele parecia jamais ter encontrado uma mulher tão fantástica em sua adolescência e ela parecia que ia engolir o garoto a cada beijo estralado enquanto os corpos tentavam quebrar a lei básica da física pelos cantos isolados do colégio. A coisa era frenética.</p>
<p>Passado alguns anos, o tal “consenso” dizia que casariam. Não teria jeito. Pois casaram-se. E o mais supreendente: fizeram isso sem engravidar antes, contrariando o que parece ser uma das leis sociais da modernidade. Sabe-se lá Deus como se seguraram. Adultos, ele trabalhava em uma multinacional enquanto ela era gerente de uma grande rede de lojas de sapatos femininos.</p>
<p>Tudo transcorria bem com aquele casal de pombos arrulhando debaixo dos lençóis sem qualquer cerimônia. Sabe aqueles sons meio esquisitos que você ouve vindo do apartamento ao lado e faz de conta que não tem idéia do que seja, mesmo tento a certeza mais absoluta do que evidentemente é? Então, eram esses os sons que eles faziam TODAS as noites regiamente.</p>
<p>Eis que no meio desse vai-que-vai ela pediu para ele parar em uma hora da qual não pode pedir mais. Queria ter um filho. O tipo de conversa que faz esse negócio que não pode mais ser parado parar imediatamente e sem qualquer chance de voltar ao ponto e continuar rumo ao apogeu glorioso do prazer. Um filho. Caraca.</p>
<p>Ele sentou na cara, nu, meio bambo ainda, com as cabeças girando atordoadas, tentando raciocinar sobre o assunto. Ela queria um filho. Ou uma filha. Não importa. Ela queria ter uma criança com ele. Uau.</p>
<p>Foi no final desse encadeamento de idéias que ele concluiu que era o mais lógico a acontecer. Um filho. Céus, um filho! Deitou novamente, puxou os lençóis e, em resposta à pergunta dela, ele prosseguiu o coito exatamente daquele ponto onde não se podia parar e, se parasse, era impossível de voltar e terminar como se nada tivesse acontecido. Mas ele conseguiu e sinalizou essa potência de leão como sua resposta positiva: eles teriam, sim, um filho.</p>
<p>No outro dia de manhã, no café, ela, muito feliz, disse a ele que já havia parado de tomar pílulas havia uma semana. A torrada parou de ser mastigada na boca dele. Como assim? Ela explicou que a caixa acabara e que, antes de comprar outra, queria manifestar seu desejo de ser mãe. Ele a observou atentamente e depois começou a escolher possíveis nomes para sua cria, com certeza a mais linda de todas.</p>
<p>As semanas foram passando e ele, sempre que via um pai acompanhando o filho, observava como se quisesse aprender todos os macetes intantaneamente. Olhava para os carros parados ao seu redor no farol e via crianças lá dentro. Garotinhos ora emburrados, ora pulando no banco traseiro feito macaco-pulga, ora berrando desesperadamente. Via também menininhas com os braços para fora do carro fazendo aviãozinho, ou então estrangulando puddles com o cinto de segurança ou ainda fazendo fusquinhas para o pai que tentava se concentrar na direção. Veja só que cambada de pivetes mais mal-educados, foi o que ele pensou.</p>
<p>Em um fim de tarde, entrou no supermercado apressado. Tinha se esquecido de comprar leite em pó para ela. Se tem uma coisa que a deixava extremamente irritada era não ter leite em pó no café-da-manhã. Pegou a cestinha e saiu em direção à prateleira específica, mas não sem antes observar um pai e seu filho andando pelos corredores. Uns 5 anos deveria ser a idade do menino. Uns 35 a idade do pai. Ficou ali, esmiuçando o relacionamento dos dois, que se davam muito bem, diga-se de passagem. O filho pegou um pacote de biscoito e colocou no carrinho, local que já comportava mais uns dez pacotes idênticos. Ao ver aquilo o pai repreendeu o garoto.</p>
<p>Muito bem, ele pensou, antes de ver o garoto abrir um berreiro ensurdecedor. Saiu correndo dali e foi até a prateleira, mais para se livrar do barulho do choro do que para comprar o produto. Enquanto escolhia, ouviu a voz do moleque, que passava pelas prateleiras ao lado, sempre berrando no rastro do pai.</p>
<p>Fugiu para o setor de plásticos do mercado. Baldes, bacias, tuperwares. Nada que interessasse uma criança chata como aquela. Como se fosse uma assombração, o pai passou atrás dele, empurrando o carrinho de compras sem parecer ligar para o escândalo daquele pivetinho, que andava logo atrás e parecia aumentar o volume do choro a cada passo.</p>
<p>E foi assim por todo o estabelecimento. Por onde ele andasse, ouvia a voz do filho e dava de cara com a complacência do pai. Não, não, não. Aquilo era demais! Aquela cena, ocorrida dentro de um supermercado, somado a todas as demais conclusões que ele obtivera durante suas “pesquisas de campo” (e vamos incluir aí, além do trânsito, entradas de escolas, visitas a amigos que tinham filhos, vizinhos, parques de diversões, cinemas e restaurantes) só apontava para um resultado: ele ainda não tinha condições psicológicas para ser pai.</p>
<p>Certamente esganaria seus filhos na primeira birra de mercado. Era o que ele pensava. Sentiu-se um monstro por isso, mas estava decidido a não estragar sua vida tendo um filho naquele momento. Não. De jeito nenhum. Voltou correndo para o supermercado e encheu uma sacola inteira com camisinhas de todos os tipos, cores, formas e tamanhos. Ela até poderia querer ter um filho sem consultá-lo antes, poderia até dizer que não iria mais tomar pílula que ele agora estava mais que prevenido. Isso. Seria assim. Ou com camisinha ou não teria mais sexo.</p>
<p>Chegou em casa com a lata de leite-em-pó em uma mão e o saco de camisinhas na outra. No caminho da cozinha, passou pela porta do banheiro. Estava aberta. Lá de dentro, ela sorria maquiavelicamente e mostrava a ele o teste de farmácia que havia comprado e feito naquele exato momento. Resultado positivo.</p>
<p>A lata de leite-em-pó escorregou e, ao bater no chão, abriu-se espalhando uma nuvem de pó por todo o ambiente. Era tarde demais. Voltou pelo corredor e guardou o pacotão de camisinhas no armário do quarto. Decidiu que as usaria como bexigas no primeiro aniversário do Gogiberto ou da Gindalinda. Tanto faz. Naquele momento, tudo o que ele sentia era um mix de horro e flicidade. Uma compaixão desmedida pelo pai do supermercado e esperava que, um dia, alguém sentisse o mesmo por ele.</p>
]]></content:encoded>
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		<title>Me liga com o Capeta?</title>
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		<pubDate>Mon, 07 Apr 2008 13:48:41 +0000</pubDate>
		<dc:creator>colunainvertebral</dc:creator>
				<category><![CDATA[Uncategorized]]></category>
		<category><![CDATA[coluna invertebral]]></category>

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		<description><![CDATA[— Alô?! Telefonista??
— Em que posso ajudá-lo?
— Telefonista??
— Pois não?
— É a telefonista??
— Sim. Como posso ajudá-lo?
— Oi.
— Olá.
— Aqui é o Fráuzio de Albuquerque Alcântara.
— &#8230;
— Preciso de uma ligação.
— Pois não. E para onde seria?
— Aqui é o Fraúzio de Albuquerque Ancântara. A SENHORA PODE FALAR MAIS ALTO???
— Claro. EM QUE POSSO AJUDÁ-LO, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>— Alô?! Telefonista??<br />
— Em que posso ajudá-lo?<br />
— Telefonista??<br />
— Pois não?<br />
— É a telefonista??<br />
— Sim. Como posso ajudá-lo?<br />
— Oi.<br />
— Olá.<br />
— Aqui é o Fráuzio de Albuquerque Alcântara.<br />
— &#8230;<br />
— Preciso de uma ligação.<br />
— Pois não. E para onde seria?<br />
— Aqui é o Fraúzio de Albuquerque Ancântara. A SENHORA PODE FALAR MAIS ALTO???<br />
— Claro. EM QUE POSSO AJUDÁ-LO, SR. FRÁUZIO????<br />
— ME LIGA COM O CAPETA.<br />
— O QUÊ?!<br />
— O CAPETA. QUERO FALAR COM O CAPETA.<br />
— Ai, eu mereço&#8230;<br />
— DESCONHECE?? DESCONHECE O CAPETA???? AQUELE DO INFERNO, MOÇA. A SENHORA NÃO É A TELEFONISTA?<br />
— Senhor, por favor, sou uma pessoa séria que trabalha duro para sustentar a família. Não me venha com trotes.<br />
— O QUÊ?!<br />
— ESTOU PERDENDO MINHA PACIÊNCIA!!!!!!<br />
— OI, SRA CLEMÊNCIA, PODE ME LIGAR COM O CRAMULHÃO, POR FAVOR? QUESTÃO DE VIDA OU MORTE.<br />
— Deus seja louvado.<br />
— FALA MAIS ALTO, PÔ!</p>
<p>— NÃO VOU FICAR BERRANDO AQUI NO TELEFONE ESTÁ ME ENTENDENDO?? NÃO VOU, NÃO SOU LOUCA, NÃO VOU!!!!!<br />
— Tá bom.<br />
— ME ENTENDEU????<br />
— Entendi.<br />
— O SR QUER OU NÃO QUER UMA LIGAÇÃO???<br />
— Hã&#8230; pode falar mais baixo, por favor?<br />
— ok.<br />
— Senhora Clemência, eu preciso falar com o senhor dos infernos.<br />
— Jesus Cristo!<br />
— Não&#8230; esse é o filho do dono do mundo. Eu quero falar com o cara da ralé, mesmo. O tal do Lúcifer, sabe, mais conhecido como Capeta, Demônio dos Infernos, Sogra&#8230;<br />
— Senhor, não tenho como fazer essa ligação. Obrigado por solicitar o auxílio a lista. Uma boa tarde!<br />
— COMO NÃO PODE? A SENHORA NÃO É TIPO UMA OPERADORA DE TELEMARKETING?<br />
— Posso chamar uma ambulância.<br />
— O Capeta. Quero falar com ele e ninguém mais.<br />
— Mas porque diabos você quer tanto falar com ele?<br />
— Quero vender minha alma para pagar um bordel cheio de putas.<br />
— Misericórdia&#8230;<br />
— E com o troco, quero encher a cara até cair e morrer atropelado por um trem.<br />
— Que horror!!!<br />
— É que&#8230; eu não aguento mais a minha vida, sabe?<br />
—&#8230;<br />
— É só desgraça. Só problema. Só salário mínimo.<br />
—  &#8230;<br />
— Cheguei em casa e encontrei meu chefe em cima da minha mulher.<br />
—  &#8230;<br />
— Saí de casa e encontrei um cara em cima da minha filha&#8230;<br />
—  &#8230;<br />
— Fui pra casa do meu irmão e peguei meu filho embaixo do meu sobrinho.<br />
—  Mas o senhor acha mesmo que isso tudo é motivo para acabar com a sua vida?<br />
— É.<br />
—  De jeito, nenhum. Deus nos deu o sopro da vida. É um dom miraculoso que temos de aproveitar bem!<br />
— &#8230;<br />
—  Acho que o senhor não pode destruir tudo o que tem de bom no seu coração por causa dos outros.<br />
—  &#8230;<br />
—  Se sua família não reconhece o amor que o senhor tem por todos, então mude de família.<br />
—  Você tem parte com o Demo??<br />
—  O QUÊ?! NÃÃÃO!!<br />
— Você tem parte, sim. Que tipo de pessoa aconselha a destruição da família? Tenho certeza de que isso não é coisa da campanha da fraternidade 2008.<br />
—  Não! Pelo amor de Deus, o senhor entendeu errado!!!!<br />
—  Me liga com o Diabo.<br />
—  Oh Deus&#8230; não faça isso, senhor. Tenho certeza de que a sua pessoa é tão linda quanto a sua voz.<br />
—  Você acha?!<br />
—  Sim.<br />
—  Mas eu não tenho os dentes da frente.<br />
—  Bem&#8230; isso é só um detalhe&#8230;<br />
—  Nem a uma parte da perna direita&#8230;<br />
—  Mas&#8230;<br />
—  E eu tenho disfunção erétil, sabe?<br />
—  Disfunção erétil? Quer dizer que&#8230;<br />
—  Isso.<br />
—  Não!<br />
—  Sim.<br />
—  Mas&#8230; mas isso tem cura, não?<br />
—  Aparentemente não.<br />
—  É Fráuzio, né? E como&#8230; como&#8230; você sabe&#8230; como é que&#8230; aham-aham&#8230;<br />
—  Tsc. Me liga com o capeta. Por favor, Dona Clemência&#8230;<br />
—  Minuto. Vou falar com minha amiga pra ver se ela tem o número.</p>
]]></content:encoded>
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		</item>
		<item>
		<title>Coerção social nível dois</title>
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		<pubDate>Mon, 24 Mar 2008 13:51:28 +0000</pubDate>
		<dc:creator>colunainvertebral</dc:creator>
				<category><![CDATA[Uncategorized]]></category>
		<category><![CDATA[coluna invertebral]]></category>

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		<description><![CDATA[Arnolf Vanzenhalf da Silva era considerado de longe o homem mais criativo do mundo. Uma celebridade digna das capas de revistas consagradas e das matérias de escândalo sócio-psico-sexual das nem tão consagradas assim. Tudo porque, um dia, ele teve a brilhante idéia de inventar o Pacote Portátil de Surto.
Isso mesmo que você leu aí. Em [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Arnolf Vanzenhalf da Silva era considerado de longe o homem mais criativo do mundo. Uma celebridade digna das capas de revistas consagradas e das matérias de escândalo sócio-psico-sexual das nem tão consagradas assim. Tudo porque, um dia, ele teve a brilhante idéia de inventar o Pacote Portátil de Surto.</p>
<p>Isso mesmo que você leu aí. Em uma sociedade cosmopolita, da qual as polaridades tensionais são o tempo todo achatadas em nome da ordem e do progresso a todo vapor, surtar geral era uma coisa que praticamente ninguém podia se dar ao luxo de fazer.</p>
<p>Imagine só. Pacote Portátil de Surto. Disponível nos mais populares hipermercados do país e com a possibilidade de pagamento parcelado em até quatro vezes no cartão de crédito! Foi um sucesso estrondoso. Agora qualquer um podia dar uma surtada, grande ou pequena, geral ou localizada, em qualquer lugar.</p>
<p>Tinha de todos os tipos. O “Surto Psicótico” deixava as pessoas com sangue nas mãos e o coração aliviado. Era só entrar naquelas loooongas reuniões de negócios com duzentas pessoas, todas integrantes da diretoria da corporação e, assim que a coisa chegasse a um nível insuportável, abrir o seu saquinho particular de surto psicótico e acabar com tudo em segundos. Tinha também o “Surto de risadas”, o “Surto Nervoso”, “Surto Histérico” (esse era o preferido das professoras do ensino médio), o “Surto de Velha” e, para as &#8220;patis&#8221; de plantão, que jamais deixam a compostura de lado, foi inventado o “Surtinho Agudo”. Ele era fantástico porque, no kit, existia tampões de ouvido para ser usado pelas mais solidárias com os colegas. Era só distribuir os objetos, avisando-os previamente de que era melhor colocá-los se não quisessem ter problemas de surdez.</p>
<p>O fato é que a indústria capitalista, doida para lucrar cada vez mais, e os consumidores entediados, doidos para curar o marasmo com porcarias inovadoras, compraram de corpo e alma a idéia do Pacote Portátil de Surto. E os acadêmicos, lógico, ficaram alucinados com as “lesões cerebrais” que esse tipo de produto poderia causar.</p>
<p>A mídia noticiava a todo vapor os efeitos sociais da invenção: Com surtos freqüentes e variados, a população começou a ficar bem menos estressada e, evidentemente, com uma roda de amigos infinitamente menor a cada surtada portátil. Consequentemente, a igreja classificou os pacotes de surtos como “bestas do apocalipse” e o pobre Arnolf foi conotado como sendo o anticristo que reencarnara na Terra e destruiria todas as civilizações.</p>
<p>Claro que, quanto mais essas declarações aconteciam, mais desse produto era consumido. Arnolf não cabia em si de contente e já prepara novas versões de surtos portáteis, como o Supersurto de Trânsito e, em resposta às críticas, o Surto Divino. Bastava uma cápsula com um copo d’água e ZÁS! Gritos de “Aleluia, Senhor” e “Queima o capeta” resolveriam qualquer questão.</p>
<p>Infelizmente, essas últimas criações não foram para o mercado. Aparentemente, Arnolf deixou cair acidentalmente o pó matriz de surtos e respirado a poeira resultante disso. Morreu vestido de homem-aranha, tentando saltar de um prédio a outro na avenida da capital, às 4h da manhã.</p>
<p>A televisão deu a notícia dizendo que fora uma overdose causada por um terrível momento de depressão. A polícia abriu inquérito para averiguar os acontecimentos. O governo criou e decretou feriado nacional o Dia do Surto, em homenagem ao grande inventou do século. A igreja fez uma procissão com oito mil fiéis marchando de joelhos até a Basílica de Santa Joana dos Purificados. E todos os herdeiros de Arnolf concordaram dizendo que ele já tinha ido tarde.</p>
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		<item>
		<title>Fé que remove a montanha</title>
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		<pubDate>Thu, 28 Feb 2008 13:54:30 +0000</pubDate>
		<dc:creator>colunainvertebral</dc:creator>
				<category><![CDATA[Uncategorized]]></category>
		<category><![CDATA[coluna invertebral]]></category>

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		<description><![CDATA[Completamente transtornada e chorando niágaras, a filha entra de supetão na cozinha.
— MÃE!!!!!
— Ai Jesus!!!
— Mãe, mãezinha, ai meu Deus&#8230; me ajuda, me ajuda, me ajuda, me ajuda!!!
— Senhor, tenha misericórdia! O que aconteceu minha filha?!?
— Mãe&#8230; Tô sem ar, mãe&#8230; Ai mãe&#8230; Saí correndo pra casa!
— “Minina”&#8230; Toma já um copo d’água.
— Não, mãe! [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Completamente transtornada e chorando niágaras, a filha entra de supetão na cozinha.</p>
<p>— MÃE!!!!!<br />
— Ai Jesus!!!<br />
— Mãe, mãezinha, ai meu Deus&#8230; me ajuda, me ajuda, me ajuda, me ajuda!!!<br />
— Senhor, tenha misericórdia! O que aconteceu minha filha?!?<br />
— Mãe&#8230; Tô sem ar, mãe&#8230; Ai mãe&#8230; Saí correndo pra casa!<br />
— “Minina”&#8230; Toma já um copo d’água.<br />
— Não, mãe! Água, não.<br />
— Mas&#8230;<br />
— Refrigerante, mãe. É melhor.<br />
— Filha, água com açúcar é bom pra acalmar!<br />
— GUARANÁ JÁ TEM AÇÚCAR, MÃ!!!<br />
—&#8230;<br />
— Glub, gululub, glub, gululub, glub&#8230;<br />
— Vai filha, agora conta, o que te fizeram?<br />
— Ai, mãe, calamidades!! Uma tragédia, mãe! Fui pega de surpresa!<br />
— Senhor Deus&#8230; dai forças nessa hora difícil para suportar toda e qualquer provação e sair vitoriosa contra as forças do Diabo que perscrutam minha vida.<br />
— Mãe???</p>
<p>— Fala, inferno!!! O que foi???<br />
— Engordei 900 gramas.<br />
— Quê?!<br />
— QUASE UM QUILO, MÃE!!!!<br />
— Olha, Westânia&#8230; Tô me segurando agora pra não descer a mão nessa tua boca cariada!!!<br />
— Não fala, assim, mã. Tô péssima!<br />
— E precisava entrar aqui berrando daquele jeito?????<br />
— 900 GRAMAS!!!!! Sabe o quanto eu me esforço pra perder 100?<br />
— Deus, tende piedade dessa mãe devota e carrega esse instrumento do Capeta de volta para o inferno de onde veio!!<br />
— Pára, Mãe! A culpa é sua.<br />
— Minha?!<br />
— Sua.<br />
— Valha-me, Senhor. Porque a culpa é minha se a mão que leva comida pra tua boca é a sua???<br />
— Eu falei pra senhora comprar dois panetones de um quilo ao invés daqueles quatro panetones de meio quilo cada um, não falei?<br />
— Falou&#8230;<br />
— E a senhora me escutou? Hein?? Escutou??<br />
— Filha amada&#8230; Dava na mesma, não dava?<br />
— Não, senhora, não dava, não.<br />
— &#8230;<br />
— Se a senhora tivesse comprado só os dois, eu teria comido APENAS os dois e não OS QUATRO panetones na noite de natal.<br />
— To absurdada!!<br />
— MÃE! A SENHORA TEM NOÇÃO DO QUE ACONTECEU AGORA? CHEQUEI PERTO, MUITO PERTO, DOS 100 kg!<br />
— Jesus, tende piedade&#8230;<br />
— Não, mãe, ele não tem.<br />
— Filha, isso dá pra remediar. É só você se controlar mais.<br />
— Eu tento, mãe.<br />
— Tem que aprender a falar “não” para as coisas, querida. Tenha fé no Senhor que ele há de ajudar.<br />
— Eu tenho. Mas não consigo. É demais pra mim.<br />
— Filha, crê no Senhor que Ele fortalece quem tem fé.<br />
— Tô péssima!<br />
— Não querida, vem cá. Me dá um abraço&#8230;<br />
— Buáááááááááá!!!<br />
— Isso, meu anjo&#8230; chora. Chorar faz bem e eu li numa revista que ajuda a queimar calorias.<br />
— UÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁ!!! BUÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁ!!!<br />
— Isso, põe pra fora! Chora pra gastar energia!<br />
— BUUUUUUÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁ!!!! BUUUUUUÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁ!!!! BUUUUUUÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁ!!!!<br />
— Pronto, filha, pronto. Passou. Agora repete comigo: eu sou forte.<br />
— EU SOU FORTE!<br />
— Isso, com fé!!!!!<br />
— SOU MUITO FORTE!<br />
— “A comida não me pertence mais”<br />
— A COMIDA NÃO ME PERTENCE MAIS!!!!!<br />
— “Jesus vai me ajudar a perder o excesso de peso”<br />
— SIM, ELE VAI ME AJUDAR!!!<br />
— Aleluia!!<br />
— ALELUIA!!!!<br />
— Tá sentindo a graça do Senhor na nossa vida, querida?<br />
— Tô. Tô sentindo, sim. Que cheirinho bom é esse?<br />
— cheiro? “Chuif, chuif”&#8230;<br />
— Sentiu?<br />
— Ah, filha, é o pudim de leite condensado que me encomendaram.<br />
— Ai, Mãe&#8230; Me dá um pedaço?</p>
]]></content:encoded>
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		</item>
		<item>
		<title>A ficha da Consulta Médica</title>
		<link></link>
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		<pubDate>Mon, 11 Feb 2008 13:53:17 +0000</pubDate>
		<dc:creator>colunainvertebral</dc:creator>
				<category><![CDATA[Uncategorized]]></category>
		<category><![CDATA[coluna invertebral]]></category>

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		<description><![CDATA[— Oi.
— Bom dia.
— Bom dia.
— Posso ajudá-lo?
— Hã&#8230; Sim, eu tenho uma consulta marcada com o Dr. Fredo.
— Ok. Qual o horário?
— Olha, está marcado para as catorze e quinze, eu acho.
— Deixe-me ver.
— &#8230;
— Sr&#8230; Cris?
— Isso. Eu mesmo. Sou eu, o Cris.
— É a primeira vez que vai passar com o Dr. [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>— Oi.<br />
— Bom dia.<br />
— Bom dia.<br />
— Posso ajudá-lo?<br />
— Hã&#8230; Sim, eu tenho uma consulta marcada com o Dr. Fredo.<br />
— Ok. Qual o horário?<br />
— Olha, está marcado para as catorze e quinze, eu acho.<br />
— Deixe-me ver.<br />
— &#8230;<br />
— Sr&#8230; Cris?<br />
— Isso. Eu mesmo. Sou eu, o Cris.<br />
— É a primeira vez que vai passar com o Dr. Fredo?<br />
— Sim.<br />
— Preciso do seu nome completo para fazer a ficha.<br />
— Cristhiangreydson Da&#8230;.</p>
<p>— Perdão, como é??<br />
— Ai saco.<br />
— Desculpe, pode repetir seu nome?<br />
— Cris-thian-greyd-son. Cristhiangreydson.<br />
— Mocinho, isso aqui é um consultório sério. Não tenho tempo para brincadeiras!<br />
— Como???<br />
— Seu nome. Já!!!<br />
— CRISTHIANGREYDSON!!!!<br />
— Esse não pode ser o seu nome!<br />
— Por que, não?<br />
— Quantas letras ele tem? Se escreve junto o separado?<br />
— Você prefere que eu soletre ou desenhe para você?<br />
— Han&#8230; o que é mais fácil de entender?<br />
— !!!!<br />
— Soletre, por favor.<br />
— Ok, ok. “Cê”, “erre”, “i” de igual, “ésse”, “tê”, “agá”&#8230; não, não&#8230; depois do “tê” vem um agá&#8230;<br />
— Um o quê?<br />
— AGÁ, SURDA! A-Gááááá!!!!<br />
— “Cê”, “erre”, “i”, “ésse”, “esse”&#8230;<br />
— Não, é um “ésse” só.<br />
— Aonde?<br />
— Aqui ó&#8230;<br />
— Ah sim&#8230; pode continuar?<br />
— “Cê”, “érre”, “i” de igual, “ésse”, “tê”, “agá”, “i” de novo, não, não&#8230; letra “i”&#8230; iiiiiiiiiii, pombas!!!! “I” de igual ao outro “i”. Isso. Agora letra “a”, “ene”, “gê”, “erre”, “e” de escola, “ipsilon”, “de” de dado, “ésse” de novo&#8230;<br />
— Você tinha dito que era um “ésse” só.<br />
— &#8230;<br />
— “Esse”, vogal “ó”, “ene” no final. Escreveu?<br />
— Me perdi no “ge”.<br />
— Jesus, me ajude a não ter um surto.<br />
— Já lhe disse, não tenho tempo pra brincadeiras. O que vem depois da letra “ge”?<br />
— Posso ir aí escrever pra senhora.<br />
— Não.<br />
— “GE”, “ERRE”, “IPSILON”, “DE” DE DOENTE MENTAL, “ÉSSE”, “Ó” DE OTÁRIO E “ENE” DE NÓIS-VAI-NÓIS VEM. Captou?<br />
— Sua mãe lhe deu um nome muito complicado.<br />
— Meu nome é complicado ou o cérebro que o interpreta é muito lento?<br />
— O nome mesmo.<br />
— A senhora já terminou??? Posso ser atendido pelo médico agora?<br />
— Cris&#8230; Cristhiangreydson de quê?<br />
— &#8230;<br />
— Seu sobrenome. Preciso do seu sobrenome para completar o cadastro.<br />
— Davilokszonvasques. Cristhiangreyson Davilokszonvasques.</p>
]]></content:encoded>
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		</item>
		<item>
		<title>Coisa de Sogra</title>
		<link></link>
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		<pubDate>Tue, 25 Sep 2007 13:56:49 +0000</pubDate>
		<dc:creator>colunainvertebral</dc:creator>
				<category><![CDATA[Uncategorized]]></category>
		<category><![CDATA[coluna invertebral]]></category>

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		<description><![CDATA[Mãe e filha ao telefone.
- Alô?!
- Oi, mãe. Sou eu.
- Olá, você. Te conheço?
- Mãe!!! Sou eu, Tarcitânia, sua filha!!
- Ah, querida, desculpa. Não me lembrava dessa sua voz de bexiga furada.
- Ai, mãe, tô com uma gripe&#8230;
- Gripe?!
- É.
- Já tomou a vitamina C?
- Já.
- Dois comprimidos de Resprin?
- Sim, dois.
- Aquele chá de [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Mãe e filha ao telefone.</p>
<p>- Alô?!<br />
- Oi, mãe. Sou eu.<br />
- Olá, você. Te conheço?<br />
- Mãe!!! Sou eu, Tarcitânia, sua filha!!<br />
- Ah, querida, desculpa. Não me lembrava dessa sua voz de bexiga furada.<br />
- Ai, mãe, tô com uma gripe&#8230;<br />
- Gripe?!<br />
- É.<br />
- Já tomou a vitamina C?<br />
- Já.<br />
- Dois comprimidos de Resprin?<br />
- Sim, dois.<br />
- Aquele chá de alho que te ensinei a fazer?<br />
- Não, mãe. Aquilo não!<br />
- mal-criada&#8230;<br />
- Mãe, eu não suporto o cheio do alho! Com vou preparar?<br />
- Peça pro seu marido.<br />
- O Crócoles tá trabalhando.<br />
- Trabalhando?!<br />
- É mãe. Trabalhando. Ele precisa trabalhar, né?<br />
- Mas você está doente! Como aquele incapaz ousa trabalhar?<br />
-  Ai&#8230; Não começa, vai&#8230;<br />
- É verdade! Seu pai sempre ficava comigo quando eu tinha qualquer mal-estarzinho cretino que fosse.<br />
- Mãe, o pai era jornalista. Podia trabalhar de casa.</p>
<p>- Não importa, querida. Seu pai me venerava. Mesmo se ele fosse pedreiro de construção de motel ele ficaria aqui comigo.<br />
- Mas o Crô ficaria se pudesse.<br />
- Mesmo?<br />
- Mesmo.<br />
- E cadê ele?<br />
- Disse que tinha uma reunião pela manhã.<br />
- Imprestável. Mas já passa de duas da tarde.<br />
- Verdade&#8230;<br />
- E ele, claro, não voltou pra casa.<br />
- Não&#8230;<br />
- Apesar de ter deixado a mulher dele com mais de 40 graus de febre, coriza e, aposto, ânsia de vômito.<br />
- Ânsia&#8230; ai&#8230; tô me sentindo bem, não&#8230;<br />
- Calma, filha. Respira no saquinho de papel, igual a mãe ensinou, respira&#8230;<br />
- Ai, mãe&#8230; me sinto sozinha. Vem pra cá.<br />
- Não posso, filha. To preparando aquele arroz doce que seu cunhado gosta, sabe?<br />
- Credo. A senhora nunca fez o cuscuz que o Crócoles sempre pede.<br />
- Querida, não vou agradar um homem inútil, que não fica ao lado da minha filha quando ela mais precisa.<br />
- Mas é só uma gripe.<br />
- E os quarenta graus de febre?<br />
- Ai&#8230;<br />
- E a infecção urinária?<br />
- Vou desmaiar!<br />
- Liga pro seu marido. Manda aquele traste vir embora e, se achar ruim, manda falar comigo!<br />
- Vou ligar.<br />
- Isso.<br />
- Já te ligo.</p>
<p>Minutos depois&#8230;</p>
<p>- Alô?!<br />
- Ai, mãe&#8230;<br />
- Quem é?!<br />
- Mãe, sou eu&#8230; a Tacitânia.<br />
- Quem?!<br />
- Mãe, o Cro não tá lá&#8230; foi o assistente dele quem atendeu o telefone.<br />
- Quem?<br />
- O assistente.<br />
- Meu Deus!!<br />
- Que foi?<br />
- Ele não tem uma secretária?<br />
- Tem&#8230;<br />
- E se ela não atendeu o telefone&#8230;<br />
- É porque não está lá também!<br />
- Calma, filha, nada de precipitações.<br />
- Mãe, eu to muito doente e aquele cretino, canalha sai pra comer a secretária.<br />
- Olha o linguajar, mocinha!<br />
- Quero morrer!<br />
- Ah, pára com isso, vai. É só uma gripe. Nem deve tá com febre.<br />
- Não, mãe&#8230; quero morrer por causar do Crócoles!<br />
- Querida, sempre te falei que ele não prestava. Olha&#8230; Tanto que eu te falei. Até quando tava te colocando o seu vestido de noiva, lembra?<br />
- Verdade&#8230;<br />
- É filha&#8230; a experiência ensina. Seu pai era um cretino, me traiu com toda as prostitutas da face da Terra.<br />
- Ai, mãe, vou arrumar as suas coisas e ir pra sua casa.<br />
- Quê?! Vai acabar com o seu casamento?<br />
- Mas, mãe&#8230;<br />
- Calaboca! Fica quietinha aí e pára com essa neurose. Tenho certeza de que seu marido está em outra reunião. Ele te ama. Sempre me diz isso ao telefone. Aliás, vou agora mesmo fazer o cuscuz que ele gosta.</p>
]]></content:encoded>
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		</item>
		<item>
		<title>Angústia</title>
		<link></link>
		<comments>http://redeultra.com.br/colunainvertebral/2007/09/10/angustia/#utm_source=rss&utm_medium=rss&utm_campaign=rss#comments</comments>
		<pubDate>Mon, 10 Sep 2007 14:41:29 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
				<category><![CDATA[Uncategorized]]></category>
		<category><![CDATA[coluna invertebral]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://redeultra.com.br/colunainvertebral/?p=24</guid>
		<description><![CDATA[Tu que estás aí bem na minha frente com teus olhos ambíguos incansáveis a me olhar, a me fitar, me observar, analisar. Não sei se me deprimo, se me orgulho, se desprezo ou se agradeço tua presença. Tu queres o que de mim?
Não sei se é bom ou mau olhar pra ti, se me faz [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Tu que estás aí bem na minha frente com teus olhos ambíguos incansáveis a me olhar, a me fitar, me observar, analisar. Não sei se me deprimo, se me orgulho, se desprezo ou se agradeço tua presença. Tu queres o que de mim?</p>
<p>Não sei se é bom ou mau olhar pra ti, se me faz bem ou me faz mal ter tua companhia, essa tua verdade estampada na cara, essa tua vontade de me dizer quem sou quando só quero enxergar o que desejaria ser. Teus conselhos silenciosos ecoam pelo ambiente, pedindo com uma quase-ordem que eu pondere sobre meus atos mesmo se surtar é tudo o que quero. Difícil saber se a melhor opção é dar-lhes as costas e nunca mais olhar para ti ou então mergulhar na contemplação da tua face ao invés de remoer as minhas mágoas.</p>
<p>Às vezes não sei quem és e, por mais que eu procure e reflita e pense e repense, não consigo chegar a uma conclusão. Porque, no final das contas, tu és sempre o que eu não queria que fosses. Tu és aquilo que nunca quero ver: meu reflexo no espelho. Estás lá de manhã quando desperto, à tarde quando chego e à noite quando me entrego ao cansaço depois de passar pela tua frente.</p>
<p>És cruel e abominável, tu mostras aquilo que sou e me jogas na cara o peso da minha consciência. Sem dó, sem piedade. Sem carinho nem vaselina. Sem misericórdia, fazes isso todos os dias e, por vezes, tua transparência é deveras insuportável.</p>
<p><img src="http://www.ultraportal.com.br/autor.jpg" alt="" /><br />
<img src="http://www.ultraportal.com.br/colunistas/andersonespanha.jpg" alt="" align="left" /><em>Redator Publicitário, <strong>Anderson Espanha</strong> veio do interior só para se habituar à selvageria da cidade grande. Pegou ônibus, trem, metrô e conheceu todo tipo de pessoa de todos os cantos. Está há seis anos no mercado publicitário e ministra aulas na Faculdade Editora Nacional, em S. Caetano do Sul. Pós-graduado em Criação Visual Multimídia tem o sonho absurdo de dominar o mundo. E nem americano ele é.<br />
Contato: <a href="mailto:andersonespanha@ultraportal.com.br">andersonespanha@ultraportal.com.br</a></em></p>
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