Se havia algo que pudesse ser chamado de “consenso geral da nação” era o relacionamento daqueles dois. Não havia uma só alma em todo o hemisfério sul que não dissesse que ele e ela foram feitos um para o outro.
De fato. Era um tal de tchululuca dali, um moronzão daqui, uma sinisininha dacolá e um jujumuzão de volta que chegava a dar nos nervos. Ele parecia jamais ter encontrado uma mulher tão fantástica em sua adolescência e ela parecia que ia engolir o garoto a cada beijo estralado enquanto os corpos tentavam quebrar a lei básica da física pelos cantos isolados do colégio. A coisa era frenética.
Passado alguns anos, o tal “consenso” dizia que casariam. Não teria jeito. Pois casaram-se. E o mais supreendente: fizeram isso sem engravidar antes, contrariando o que parece ser uma das leis sociais da modernidade. Sabe-se lá Deus como se seguraram. Adultos, ele trabalhava em uma multinacional enquanto ela era gerente de uma grande rede de lojas de sapatos femininos.
Tudo transcorria bem com aquele casal de pombos arrulhando debaixo dos lençóis sem qualquer cerimônia. Sabe aqueles sons meio esquisitos que você ouve vindo do apartamento ao lado e faz de conta que não tem idéia do que seja, mesmo tento a certeza mais absoluta do que evidentemente é? Então, eram esses os sons que eles faziam TODAS as noites regiamente.
Eis que no meio desse vai-que-vai ela pediu para ele parar em uma hora da qual não pode pedir mais. Queria ter um filho. O tipo de conversa que faz esse negócio que não pode mais ser parado parar imediatamente e sem qualquer chance de voltar ao ponto e continuar rumo ao apogeu glorioso do prazer. Um filho. Caraca.
Ele sentou na cara, nu, meio bambo ainda, com as cabeças girando atordoadas, tentando raciocinar sobre o assunto. Ela queria um filho. Ou uma filha. Não importa. Ela queria ter uma criança com ele. Uau.
Foi no final desse encadeamento de idéias que ele concluiu que era o mais lógico a acontecer. Um filho. Céus, um filho! Deitou novamente, puxou os lençóis e, em resposta à pergunta dela, ele prosseguiu o coito exatamente daquele ponto onde não se podia parar e, se parasse, era impossível de voltar e terminar como se nada tivesse acontecido. Mas ele conseguiu e sinalizou essa potência de leão como sua resposta positiva: eles teriam, sim, um filho.
No outro dia de manhã, no café, ela, muito feliz, disse a ele que já havia parado de tomar pílulas havia uma semana. A torrada parou de ser mastigada na boca dele. Como assim? Ela explicou que a caixa acabara e que, antes de comprar outra, queria manifestar seu desejo de ser mãe. Ele a observou atentamente e depois começou a escolher possíveis nomes para sua cria, com certeza a mais linda de todas.
As semanas foram passando e ele, sempre que via um pai acompanhando o filho, observava como se quisesse aprender todos os macetes intantaneamente. Olhava para os carros parados ao seu redor no farol e via crianças lá dentro. Garotinhos ora emburrados, ora pulando no banco traseiro feito macaco-pulga, ora berrando desesperadamente. Via também menininhas com os braços para fora do carro fazendo aviãozinho, ou então estrangulando puddles com o cinto de segurança ou ainda fazendo fusquinhas para o pai que tentava se concentrar na direção. Veja só que cambada de pivetes mais mal-educados, foi o que ele pensou.
Em um fim de tarde, entrou no supermercado apressado. Tinha se esquecido de comprar leite em pó para ela. Se tem uma coisa que a deixava extremamente irritada era não ter leite em pó no café-da-manhã. Pegou a cestinha e saiu em direção à prateleira específica, mas não sem antes observar um pai e seu filho andando pelos corredores. Uns 5 anos deveria ser a idade do menino. Uns 35 a idade do pai. Ficou ali, esmiuçando o relacionamento dos dois, que se davam muito bem, diga-se de passagem. O filho pegou um pacote de biscoito e colocou no carrinho, local que já comportava mais uns dez pacotes idênticos. Ao ver aquilo o pai repreendeu o garoto.
Muito bem, ele pensou, antes de ver o garoto abrir um berreiro ensurdecedor. Saiu correndo dali e foi até a prateleira, mais para se livrar do barulho do choro do que para comprar o produto. Enquanto escolhia, ouviu a voz do moleque, que passava pelas prateleiras ao lado, sempre berrando no rastro do pai.
Fugiu para o setor de plásticos do mercado. Baldes, bacias, tuperwares. Nada que interessasse uma criança chata como aquela. Como se fosse uma assombração, o pai passou atrás dele, empurrando o carrinho de compras sem parecer ligar para o escândalo daquele pivetinho, que andava logo atrás e parecia aumentar o volume do choro a cada passo.
E foi assim por todo o estabelecimento. Por onde ele andasse, ouvia a voz do filho e dava de cara com a complacência do pai. Não, não, não. Aquilo era demais! Aquela cena, ocorrida dentro de um supermercado, somado a todas as demais conclusões que ele obtivera durante suas “pesquisas de campo” (e vamos incluir aí, além do trânsito, entradas de escolas, visitas a amigos que tinham filhos, vizinhos, parques de diversões, cinemas e restaurantes) só apontava para um resultado: ele ainda não tinha condições psicológicas para ser pai.
Certamente esganaria seus filhos na primeira birra de mercado. Era o que ele pensava. Sentiu-se um monstro por isso, mas estava decidido a não estragar sua vida tendo um filho naquele momento. Não. De jeito nenhum. Voltou correndo para o supermercado e encheu uma sacola inteira com camisinhas de todos os tipos, cores, formas e tamanhos. Ela até poderia querer ter um filho sem consultá-lo antes, poderia até dizer que não iria mais tomar pílula que ele agora estava mais que prevenido. Isso. Seria assim. Ou com camisinha ou não teria mais sexo.
Chegou em casa com a lata de leite-em-pó em uma mão e o saco de camisinhas na outra. No caminho da cozinha, passou pela porta do banheiro. Estava aberta. Lá de dentro, ela sorria maquiavelicamente e mostrava a ele o teste de farmácia que havia comprado e feito naquele exato momento. Resultado positivo.
A lata de leite-em-pó escorregou e, ao bater no chão, abriu-se espalhando uma nuvem de pó por todo o ambiente. Era tarde demais. Voltou pelo corredor e guardou o pacotão de camisinhas no armário do quarto. Decidiu que as usaria como bexigas no primeiro aniversário do Gogiberto ou da Gindalinda. Tanto faz. Naquele momento, tudo o que ele sentia era um mix de horro e flicidade. Uma compaixão desmedida pelo pai do supermercado e esperava que, um dia, alguém sentisse o mesmo por ele.
Debata
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