// + | :-)

Complexidade

Coluna Poética

Pessoal,

Depois de um pequeno hiato de alguns dias, onde tive viagens, congresso e compromissos combinados, retorno ao ritmo normal para colocar em dia as colunas.

Na coluna de hoje, vou postar alguns poemas muito interessantes; uns famosos, outros nem tanto e um inédito, escrito especialmente para a coluna por uma amiga minha, poetisa e estudante de pedagogia.

VOZES DO MAR – Florbela Espanca

Quando o sol vai caindo sob as águas

Num nervoso delíquio d’ouro intenso,

Donde vem essa voz cheia de mágoas

Com que falas à terra, ó mar imenso?

Tu falas de festins, e cavalgadas

De cavaleiros errantes ao luar?

Falas de caravelas encantadas

Que dormem em teu seio a soluçar?

Tens cantos d’epopeias? Tens anseios

D’amarguras? Tu tens também receios,

Ó mar cheio de esperança e majestade?!

Donde vem essa voz, ó mar amigo?…

…Talvez a voz do Portugal antigo,

Chamando por Camões numa saudade!

A uma mulher – Vinicius de Morais

Quando a madrugada entrou eu estendi o meu peito nu sobre o teu peito
Estavas trêmula e teu rosto pálido e tuas mãos frias
E a angústia do regresso morava já nos teus olhos.
Tive piedade do teu destino que era morrer no meu destino
Quis afastar por um segundo de ti o fardo da carne
Quis beijar-te num vago carinho agradecido.
Mas quando meus lábios tocaram teus lábios
Eu compreendi que a morte já estava no teu corpo
E que era preciso fugir para não perder o único instante
Em que foste realmente a ausência de sofrimento
Em que realmente foste a serenidade.

Mais um dia – Talita Teixeira Gomes – 17/05/2008

Mais um dia começa

E a mulher vai lavando o chão do bar.

Quem dera lavasse o vício, a pobreza,

Quem dera lavasse a miséria humana.

Mas se lavar o vício, de onde obterá sustento

Sendo que a pinga e a cerveja é que dão lucro?

Ela vai secando o chão

E o primeiro cliente chega, nem são oito da manhã

Um pobre coitado pedindo uma birita pra pagar amanhã…

Mas provavelmente amanhã ele não vai ter dinheiro,

Porque mora na rua e vive de esmola e pequenos furtos.

Ele toma uma dose e sai com a garrafa na mão, gritando obrigado,

Agradecendo a Deus por mais um dia, pegando um cigarro amassado no bolso,

Uma moça passa fumando, ele pede o isqueiro,

A tragada relaxa, mais um dia começa…

Sua mulher está grávida, mais um neste mundo (ele pensa),

Sentada na esquina, os cabelos desgrenhados,

A barriga não pára de crescer, e as noites frias deste mês de maio são dormidas sobre um papelão, com uma coberta velha, as costas doem, o vento castiga…

Juntando-se ao grupo,

Na esquina do Mercado Central,

Sem banho a dias, comendo frutas que o homem do varejão doa (às vezes).

Ele brinca com os cães, fiéis companheiros da vida na rua.

O caminhão do frigorífico estaciona,

Os cães se aproximam, observando sem latir,

Enquanto os funcionários descarregam a carne.

Hipnotizados, com fome, com pulgas…

Um dos homens arremessa um pedaço de gordura,

Os bichos correm pra pegá-lo, disputando ferozmente o pequeno troféu.

Depois o caminhão vai embora, o dono assovia

E eles correm como crianças chamadas pelos pais,

Brincando na calçada, correndo na frente dos carros,

Sem medo, sem coleira… livremente…

Entro no ônibus, rumo ao trabalho,

Enquanto o grupo sentado na esquina

Compartilha das frutas e da bebida pra aquecer o corpo.

Os cães brincam alegremente…

SOLIDÃO – Álvares de Azevedo

Nas nuvens cor de cinza do horizonte

A lua amarelada a face embuça;

Parece que tem frio, e no seu leito

Deitou, para dormir, a carapuça.

Ergueu-se, vem da noite a vagabunda

Sem xale, sem camisa e sem mantilha,

Vem nua e bela procurar amantes;

É douda por amor da noite a filha.

As nuvens são uns frades de joelhos,

Rezam adormecendo no oratório;

Todos têm o capuz e bons narizes.

E parecem sonhar o refeitório.

As árvores prateiam-se na praia,

Qual de uma fada os mágicos retiros

O lua, as doces brisas que sussurram

Coam dos lábios teus como suspiros!

Falando ao coração que nota aérea

Deste céu, destas águas se desata?

Canta assim algum gênio adormecido

Das ondas mortas no lençol de prata?

Minha alma tenebrosa se entristece,

É muda como sala mortuária

Deito-me só e triste, e sem ter fome

Vejo na mesa a ceia solitária.

Ó lua, ó lua bela dos amores,

Se tu és moça e tens um peito amigo,

Não me deixes assim dormir solteiro,

À meia-noite vem cear comigo!

Por hoje é só e espero que encontrem o que procuram nos livros.

Saudações,

N.E.I.

Compartilhe:
  • Twitter
  • E-mail this story to a friend!
  • Print this article!
  • Turn this article into a PDF!
  • RSS
  • del.icio.us
  • Digg
  • Facebook
  • Google Bookmarks
  • LinkedIn
  • Live
  • MySpace
  • Technorati
  • Yahoo! Bookmarks
  • Yahoo! Buzz
  • Netvibes
  • Reddit
  • StumbleUpon
  • blogmarks
  • Sphinn
  • Mixx
  • BlogMemes Sp
  • Blogosphere News
  • Current
  • Identi.ca
  • LinkaGoGo
  • MisterWong
  • MSN Reporter
  • muti
  • NewsVine
  • Symbaloo
  • Suggest to Techmeme via Twitter
  • Tipd
  • BarraPunto
  • Ping.fm
  • Socialogs
  • Upnews
  • Webnews.de
  • FSDaily
  • Rec6
  • Slashdot
  • SphereIt
  • ThisNext

Debata

No comments para “Coluna Poética”

Poste um Comentário

Voce tem que estar logado para postar um comentário.

Translator

Translator by Yellingnews

Acervo Mensal