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	<title>Líricas Bulhufas</title>
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	<description>por Marcelo Sguassábia</description>
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		<title>CITRUS</title>
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		<pubDate>Sun, 01 Aug 2010 13:08:05 +0000</pubDate>
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Deu-se o fato, como das  outras vezes, ao sol quase posto das seis da tarde, e foi como se uma  mão de força irreconhecível me empurrasse para o pomar das laranjas  descascadas. Firmes, doces, sem sementes nem fiapos a se entranhar entre  os dentes. Laranjas de Hollywood. Cenográficas, escolhidas e livres [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<h3><a rel="nofollow" href="http://consoantesreticentes.blogspot.com/2010/07/citrus.html" target="_blank"><span style="color: #000000"><br />
</span></a></h3>
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<div>
<span style="font-family: courier new">Deu-se o fato, como das  outras vezes, ao sol quase posto das seis da tarde, e foi como se uma  mão de força irreconhecível me empurrasse para o pomar das laranjas  descascadas. Firmes, doces, sem sementes nem fiapos a se entranhar entre  os dentes. Laranjas de Hollywood. Cenográficas, escolhidas e livres de  suas cascas, sem um machucado de faca. Todas estranhamente dispostas em  seus galhos de nascença, à mercê da humanidade preguiçosa. As melhores  não necessariamente se apanhavam nos ramos mais altos das árvores, como  nos pomares comuns e para tristeza dos meninos mirradinhos. Muitas das  mais suculentas ficavam nas saias das laranjeiras, quase tocando a terra  e ao alcance do casal de anões. Fartavam-se ambos, sorvendo até secarem  os bagaços, naquele “chup-chup” a lembrarem porcos. Pus-me ali sem  querer assustar, e ao verem-me ao seu lado não manifestaram outra coisa  senão uma silenciosa  indiferença. Ali éramos, somente, sem definido propósito. Dois anões e  um intruso de outro tempo, a observar sem compreender, talvez despido  das cascas da lógica, do senso de necessária causa e consequência para  tudo que exista sob o sol – já praticamente lua, àquela altura do dia 18  de novembro de 1942. </span></div>
<div><span style="font-family: Courier New"> </span></div>
<div><span style="font-family: Courier New"><em>Direitos Reservados</em></span></div>
<div><span style="font-family: Courier New"> </span></div>
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</div>
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		<title>ALTAMENTE MAIS OU MENOS</title>
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		<pubDate>Sun, 25 Jul 2010 14:24:55 +0000</pubDate>
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COMO É QUE O SENHOR RESUME A SUA TEORIA?
É  simples: a felicidade está na mediocridade – entendendo-se mediocridade  como patamar médio, não como algo de qualidade sofrível. O ideal é  sempre a média, é nela que residem o equilíbrio e a harmonia. Para  aprovar ou reprovar um aluno, não tira-se a [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<h3><a rel="nofollow" href="http://consoantesreticentes.blogspot.com/2010/07/altamente-mais-ou-menos.html" target="_blank"><span style="color: #000000"><br />
</span></a></h3>
<div><a rel="nofollow" href="http://1.bp.blogspot.com/_vd69v5m9RqE/TEGCgxwajbI/AAAAAAAABec/A_0Zfx__bOY/s1600/cinco.jpg" target="_blank"><img style="text-align: center;margin: 0px auto 10px;width: 214px;height: 320px" src="http://1.bp.blogspot.com/_vd69v5m9RqE/TEGCgxwajbI/AAAAAAAABec/A_0Zfx__bOY/s320/cinco.jpg" border="0" alt="" /></a></p>
<div><span style="font-family: courier new">COMO É QUE O SENHOR RESUME A SUA TEORIA?<br />
É  simples: a felicidade está na mediocridade – entendendo-se mediocridade  como patamar médio, não como algo de qualidade sofrível. O ideal é  sempre a média, é nela que residem o equilíbrio e a harmonia. Para  aprovar ou reprovar um aluno, não tira-se a média de suas notas? E as  fileiras do meio, não são as mais disputadas no cinema? Voltando à  comparação com o universo escolar: o chatinho de óculos da primeira  carteira, que uns chamam de cheira-bunda e outros de lustra-maçã, é um  nerd insuportável. O da turma do fundão coloca tachinha na cadeira do  professor. E ambos são repulsivos.</p>
<p>EXPLIQUE MELHOR.<br />
Vou dar um  exemplo: imagine uma maratona ou uma corrida de Fórmula 1. Nada como  correr e terminar a prova no pelotão intermediário – nem na tropa de  elite, nem no lodo dos retardatários. Os que estão no imenso cordão  mediano  correm numa boa, porque uma corrida precisa dos que estão no meio para  que existam os que acabam nas pontas. É o pessoal que faz número, são os  menos cobrados e ao mesmo tempo absolutamente indispensáveis.</p>
<p>SIM, MAS&#8230;<br />
Os  últimos recebem o desprezo e a chacota. Os primeiros, a inveja e a  responsabilidade por um desempenho cada vez melhor. Um expoente em  qualquer coisa é tão discriminado quanto um retardado naquela mesma  coisa. Lembre-se, meu caro: o filé do peixe é aquela parte que fica  entre a cabeça e o rabo.</p>
<p>SÓ QUE É A CABEÇA QUE COMANDA O PEIXE PARA BUSCAR ALIMENTO, E O RABO É QUEM O IMPULSIONA PARA CHEGAR ATÉ ELE.<br />
Sim,  e para quê? Para nutrir o resto do corpo e nos legar o seu filé, aquela  parte que fica bem no meio&#8230; xeque-mate, senhor repórter!</p>
<p>ESTA É UMA FORMA UM TANTO QUANTO CONFORMISTA DE ENCARAR A VIDA, NÃO ACHA?<br />
Pode  ser para você, um sujeito visivelmente contaminado pela competitividade  capitalista. Que segura trêmulo este microfone na minha cara, olhando a  toda hora para o relógio e preocupado em ser o primeiro a levar esta  minha entrevista às bancas amanhã. Não é isso mesmo?</p>
<p>SE EU NÃO  FIZER ISSO, SOU MANDADO EMBORA. MAS, CONTINUANDO: EM DECLARAÇÕES  RECENTES, O SENHOR AFIRMA QUE SUA TEORIA TAMBÉM SE APLICA ÀS RELAÇÕES  FAMILIARES.<br />
Evidente. O primeiro filho é sempre vítima de uma criação  cheia de cuidados excessivos, de bajulações desnecessárias da parte dos  pais e dos avós, o que acaba por estragar o indivíduo e torná-lo um  parasita sem vontade própria, com traumas que farão as delícias e o  sustento dos analistas. Já com o caçula, via de regra ocorre o oposto: a  família já está tão de saco cheio de tantos filhos que cria o coitado  de qualquer jeito. A vantagem fica com os filhos do meio, que herdam as  roupas e brinquedos do primogênito e deixam a sucata para o mais novo da  prole. Além disso,  eles ficam livres da vigilância ostensiva dos pais – que estão mais  ocupados em limpar o cocô do pequenininho e ficar procurando droga na  mochila do mais velho. Pode reparar, é sempre assim.</p>
<p>FINALIZANDO, O QUE ACHOU DESSA ENTREVISTA?<br />
Mais  ou menos. Você não me entupiu de perguntas bestas, nem eu me alonguei  muito nas respostas. E estando mais ou menos, para mim está ótimo.</p>
<p>© Direitos Reservados</span></div>
</div>
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		<title>REFÉNS</title>
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		<pubDate>Sun, 18 Jul 2010 14:43:21 +0000</pubDate>
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Poderia  apertar aquele parafusinho minúsculo e a coisa voltaria a funcionar  perfeitamente. Bastaria um quarto de volta em sentido horário, com uma  chave philips e pronto. Problema de mau contato. Mas olhei pra cara da  freguesa e vi que ela devia usar Lancôme da testa à unha do pé, e que [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<h3><a rel="nofollow" href="http://consoantesreticentes.blogspot.com/2010/07/refens.html" target="_blank"><span style="color: #000000"><br />
</span></a></h3>
<div><a rel="nofollow" href="http://3.bp.blogspot.com/_vd69v5m9RqE/TDiHW6RFlGI/AAAAAAAABeE/Od9D6W74k1Q/s1600/ref%C3%A9m.jpg" target="_blank"><img style="text-align: center;margin: 0px auto 10px;width: 320px;height: 205px" src="http://3.bp.blogspot.com/_vd69v5m9RqE/TDiHW6RFlGI/AAAAAAAABeE/Od9D6W74k1Q/s320/ref%C3%A9m.jpg" border="0" alt="" /></a></p>
<div><span style="font-family: courier new">Poderia  apertar aquele parafusinho minúsculo e a coisa voltaria a funcionar  perfeitamente. Bastaria um quarto de volta em sentido horário, com uma  chave philips e pronto. Problema de mau contato. Mas olhei pra cara da  freguesa e vi que ela devia usar Lancôme da testa à unha do pé, e que só  aquele solitário na mão direita valia mais que a minha oficina inteira.  Então pintei a coisa bem preta para valorizar o serviço. Pelo menos  três dias na bancada, para testes no voltímetro. Provavelmente era o  diodo do transistor com o relê de amperagem em corrente descontínua, e  pra trocar a pecinha só substituindo a placa toda – importada do Japão.  Seria uma das hipóteses, mas para ter certeza, só abrindo tudo e  aferindo cada um dos componentes na oficina.</p>
<p><em>- Olha, dona,  por enquanto a senhora acerta comigo a visita técnica. Pode ficar  tranquila que só toco o serviço com a  aprovação do orçamento. Mas se for isso mesmo que estou pensando,  melhor vender como sucata e comprar outro. Também não vale a pena levar à  Autorizada, eles vão querer cobrar umas três vezes mais da senhora. Mas  olha, pode ficar à vontade, pelo amor de Deus, não estou querendo  forçar nada, faça como quiser&#8230;<br />
</em><br />
Daí a três dias ela liga  perguntando se o orçamento está pronto. Valorizo um pouco mais, digo que  tenho que baixar o manual de especificações atualizadas do produto no  site do fabricante e peço que ligue de novo depois de amanhã, mas que  provavelmente é aquilo que lhe disse. Ela torna a ligar no sábado às  nove, eu prometo para segunda. Na segunda eu confirmo a morte prematura  de todo o circuito impresso. Ela vende para mim mesmo o aparelho ainda  na caixa por R$14,50 e já pede que eu encomende um novo. Falo com aquele  meu brother da Santa Ifigênia, e combinamos 350% em cima do preço de  custo. A título de  honorários. Aperto o parafuso da belezinha que me caiu no colo por  R$14,50 e passo pra frente pelo preço do novo, para outro cliente.</p>
<p>********</p>
<p>Está  tudo esquematizado, Lontra. A gente começa falando em possibilidade de  apendicite &#8211; pela alta ingestão de milho verde na véspera associada à  estafa física causada por 16 voltas ininterruptas no pedalinho do lago  municipal, conforme relatado pelo próprio paciente.</p>
<p>Mas vamos  devagar para não assustar a família, até porque a gente sabe que o cara  não tem nada. Se começar a meter muito medo, eles vão atrás de uma  segunda opinião e aí a gente se encrenca.</p>
<p>Ratazana libera os  trâmites necessários para os exames preliminares, os raios X e os  laboratoriais de rotina. Esquema quinze/quinze/quinze pra cada um dos  três, como acertado. Golfinho, homem de confiança do Pantera, coordena  todo o processo de diagnóstico por imagem (lembrando que aí o esquema é  sessenta/dez/dez/dez/dez e que é indispensável a rubrica do Potranca,  para a perícia não pegar).</p>
<p>Daí pra frente a gente coloca o  infeliz num tomógrafo e diz que o milho verde do quiosque reagiu  quimicamente no duodeno e seus grãos transmutaram-se em quistos, um caso  incomum mas não propriamente raro nos anais da medicina. Aí a gente diz  que é necessária uma ressonância para sacramentar o diagnóstico. Como  todos sabem, este exame ter de ser no <em>cash</em>. Mas tudo bem,  sondei a ficha e vi que o infeliz é fazendeiro em Palmas. Quanto aos  honorários fica 50% para mim e a outra metade para dividir com o  zoológico, conforme organograma. Peço que o Avestruz envie cópia deste  aos demais envolvidos, que deverão deletar esta mensagem assim que lida.  Bom trabalho a todos.</p>
<p>© Direitos Reservados</span></div>
</div>
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		<title>CHEGANÇA</title>
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		<pubDate>Sun, 11 Jul 2010 14:39:18 +0000</pubDate>
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I
Na avidez de dar  enfim com o costado no repouso, ele apeou de mala em mãos e um risinho  assim assim. Sem mágoa ou quê de remorso, de certo só as incertezas.  Tantas, de encher embornal. Arrobas de maus presságios se anunciavam na  tez, cheia de pés-de-galinha. Morena em casa não [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div><a rel="nofollow" href="http://3.bp.blogspot.com/_vd69v5m9RqE/TC8cqX2UqLI/AAAAAAAABd0/-Zpc23mBxG0/s1600/porteira.jpg" target="_blank"><img style="text-align: center;margin: 0px auto 10px;width: 320px;height: 213px" src="http://3.bp.blogspot.com/_vd69v5m9RqE/TC8cqX2UqLI/AAAAAAAABd0/-Zpc23mBxG0/s320/porteira.jpg" border="0" alt="" /></a></p>
<div><span style="font-family: courier new">I</p>
<p>Na avidez de dar  enfim com o costado no repouso, ele apeou de mala em mãos e um risinho  assim assim. Sem mágoa ou quê de remorso, de certo só as incertezas.  Tantas, de encher embornal. Arrobas de maus presságios se anunciavam na  tez, cheia de pés-de-galinha. Morena em casa não tinha, na tina d’água  um cabelo – longo ele era, se via, mas a quem seu pertencer? Caneta  tinteiro, umas notas de mil réis, baixela de prata luzia. Luzia, nome de  gente, de quem tirava casquinha dia sim, dia não, na casa pegada à  quitanda lá no antro de onde vinha. Mas muito sem compromisso, anéis nem  mesmo de lata. Pra que sarna a se coçar? Velhas de véu no entorno, e  vítrea clareira se inchava pra cima dele, o coitado. Assim passou aquele  dia, como passavam-se os outros, no vácuo do haver nadinha. Daquele  jeito é que era, melhor que se acostumasse.</p>
<p>II</p>
<p>De tombo em  tombo se rala, no umbral de  vela apagada e malho intenso de bigorna. Se luz houvesse, bobagem –  coisas não resolveria, e alento para as feridas não havia de ter por  perto. No poço bem pouca água, nem erva daninha no pasto se dispunha a  vicejar. Dom não tinha, voz calava, ardume ardia e, a horas tantas, até o  relógio decidiu não trabalhar. Estica as costas e apanha vento encanado  de esguelha, e Deus que ajuda a quem apela trouxe uma pena flanando, só  pra lembrar (de mansinho) que ao flanar também se pena. Dura lição  aprendida em ponta de faca cega, na agrura do verbo errar. Varre esse  mal pensamento, dai-me o céu o que fazer. Credo em cruz, que largo hiato  sem segundos que se contem. Rogo ao cão: cadê Luzia?</p>
<p>III</p>
<p>Luzia  diz que vem de jeito nenhum, que hoje é dia de esfrega e não de pouca  vergonha. Casa pegada à quitanda, nem pra semana – só mês que entra, e  olhe lá. Espere ou vá se catar. </span></div>
<div><span style="font-family: Courier New"> </span></div>
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<p><span style="font-family: courier new">© Direitos Reservados</span></div>
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		<title>PALAVRA PERDIDA</title>
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		<pubDate>Sun, 04 Jul 2010 13:31:22 +0000</pubDate>
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AO MEU PAI


Eu ando atrás da  palavra, eu juro que ando. A que talvez esteja no dicionário que outro  dia mesmo você me perguntou se deveria ter em casa, para seus versos e  rimas. Lembra, num dos últimos emails que você me passou, o assunto era o  dicionário. Foi [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<h3><a rel="nofollow" href="http://consoantesreticentes.blogspot.com/2010/06/palavra-perdida.html" target="_blank"><span style="color: #000000"><br />
</span></a></h3>
<p><a rel="nofollow" href="http://2.bp.blogspot.com/_vd69v5m9RqE/TCX1TM4a-vI/AAAAAAAABdk/-to_Xg37jKA/s1600/livro+vazio.jpg" target="_blank"><img style="text-align: center;margin: 0px auto 10px;width: 320px;height: 214px" src="http://2.bp.blogspot.com/_vd69v5m9RqE/TCX1TM4a-vI/AAAAAAAABdk/-to_Xg37jKA/s320/livro+vazio.jpg" border="0" alt="" /></a></p>
<div><span style="font-family: courier new"><strong><em> </em></strong></span></div>
<div><span style="font-family: courier new"><strong><em> </em></strong></span></div>
<div><span style="font-family: courier new"><strong><em>AO MEU PAI</em><br />
</strong></span></div>
<p><span style="font-family: courier new"><br />
Eu ando atrás da  palavra, eu juro que ando. A que talvez esteja no dicionário que outro  dia mesmo você me perguntou se deveria ter em casa, para seus versos e  rimas. Lembra, num dos últimos emails que você me passou, o assunto era o  dicionário. Foi quando você – bem a seu modo, sem muita cerimônia –  resolveu ficar mudo. E palavras costumam perder serventia quando se  emudece.</p>
<p>Desde então muitas delas, além de tornarem-se inúteis,  ganharam sentido diverso. Se me falavam em traqueostomia, eu entendia  seresta. Se me falavam em sedação, eu entendia bravura. Se me falavam em  hospital, eu entendia passarinho. Dos raros de voo e trinado. Um  Uirapuru, quem sabe? Se me falavam em cateter, eu entendia realejo, num  dialeto de Babel que aqueles homens e mulheres de aventais azuis e  cheiro de éter nunca compreenderiam. Sabia que havia ali, num canto de  boca cheia de tubos e respiradores, o  verbo-senha, o pé-de-cabra de um milhão de portas, o código de que você  foi guardião por 86 anos.</p>
<p>Essa palavra, que você não consegue  mais pronunciar, eu seguirei buscando. Vou atrás do tal dicionário, quem  sabe eu a encontre por lá. Gritarei sozinho, mas bem alto e por nós  dois, essa palavra aos ventos todos. Sei que isso não te deixará menos  mudo, mas você não estará tão surdo que não a possa escutar.</span></p>
]]></content:encoded>
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		<title>QUEM QUISER QUE CONTE OUTRA</title>
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		<pubDate>Sun, 20 Jun 2010 15:28:05 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
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		<description><![CDATA[
Num reino muito distante  vivia Branca de Neve, que, já beirando os 50, entraria com uma denúncia  no Procon ao constatar que não seria feliz para sempre coisíssima  nenhuma, conforme prometera o estúdio de animação. Frustrada com o  casamento, enganaria rotineiramente o príncipe sem maiores dramas de  consciência, cada dia [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://2.bp.blogspot.com/_vd69v5m9RqE/TBNHZV5rE4I/AAAAAAAABcs/RrIin7eWmkg/s1600/sapo.jpg"><img style="text-align: center;margin: 0px auto 10px;width: 320px;height: 262px" src="http://2.bp.blogspot.com/_vd69v5m9RqE/TBNHZV5rE4I/AAAAAAAABcs/RrIin7eWmkg/s320/sapo.jpg" border="0" alt="" /></a><br />
Num reino muito distante  vivia Branca de Neve, que, já beirando os 50, entraria com uma denúncia  no Procon ao constatar que não seria feliz para sempre coisíssima  nenhuma, conforme prometera o estúdio de animação. Frustrada com o  casamento, enganaria rotineiramente o príncipe sem maiores dramas de  consciência, cada dia da semana com um anãozinho – mas sempre com  camisinha. No caso, camisinhazinha.</p>
<p>O príncipe, ao cavalgar pelos  arredores do reino enquanto era corneado, avistou um dia a casa de  Prático, o mais esperto dos três porquinhos. Papo vai, papo vem e o  futuro monarca convenceu o suíno a firmar sociedade com ele num  frigorífico para produção de bacon sem colesterol e 0% de calorias. Mas  Prático não foi esperto o suficiente para desconfiar que ele entraria  com o bacon. Pensava que sua participação se restringiria à gestão  estratégica do empreendimento, por conhecer a fundo o produto desde  leitãozinho.</p>
<p>Emitido o atestado de óbito – e de burrice, o  príncipe contrata o marceneiro Geppeto para fazer o caixão de Prático,  cujo velório se realizaria após a missa de porco presente. Foi quando  Pinóquio resolveu meter o nariz na história: “Meu faro diz que esse  negócio de bacon light é muito promissor”, comentou ele com o napolitano  vovozinho.</p>
<p>“Sou o sócio que todo empreendedor pediu ao Sebrae”,  argumentou Pinóquio ao visitar o príncipe em sua fabriqueta de toucinho.  “Se mentir ou tentar enganá-lo, meu nariz me denunciará”. Mais que  convincente, o argumento era irresistível. Tinha à sua frente o sócio  ideal: um sujeito compulsoriamente honesto!</p>
<p>Mas se associar  empresarialmente ao príncipe não significava garantia de recursos  fartos. A arrecadação de impostos no reino se resumia a umas poucas  patacas, graças à inoperância da máquina administrativa. O jeito era  arrumar um terceiro sócio – o capitalista. De imediato Pinóquio  lembrou-se de Dona Baratinha, a que tem fita no cabelo mas jamais  deixaria o dinheiro na caixinha: todos sabiam que aplicara tudo,  incluindo o espólio de João Ratão, num fundo de investimento agressivo  para ter lucro rápido e desbaratinar, pegando onda em Saquarema. (A  título de curiosidade, João Ratão empanturrou-se até a morte com o bacon  de Prático, um dos muitos pertences da substancial feijoada da Senhora  Baratinha).</p>
<p>Ao ser consultado para aceitar a proposta, o famoso  inseto da família dos blatídeos esquivou-se, alegando os planos de  desbaratinamento acima citados e que já estava de malas prontas para a  paradisíaca cidade fluminense. Mas indicou o Gato de Botas como parceiro  no projeto, embora o felino tivesse sido um perseguidor implacável do  seu amado João Ratão, nos porões de uma repartição pública.</p>
<p>Longe  há muitos anos da burocracia estatal, o Gato de Botas andava agora de  rabo preso ao jogo do bicho. Com as patas sobre a mesa do seu bunker e  cofiando calmamente seus bigodes, recusou com polidez a oferta de  Pinóquio e do príncipe: “O convite é tentador, mas não é zoológico  abandonar nesse momento os meus negócios. Já falaram com o Shrek? Também  ouvi dizer que a Cinderela, com aquela carinha de santa, tem cem mil  contos de fada depositados na Suíça. Aposto que não sabiam disso, né. Um  verdadeiro golpe de mestre..”</p>
<p>- Mestre&#8230; claro, o anão! Como  não pensamos nele antes? Bem debaixo das minhas barbas! – retrucou o  príncipe.</p>
<p>- E do meu nariz!, complementou Pinóquio. Com o  trabalho nas minas, deve ter muito dinheiro guardado, o bastante para  fazer do Diet Bacon um fenômeno nas gôndolas. Vamos já para o seu reino,  príncipe</p>
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		<title>MUROS</title>
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		<pubDate>Sun, 13 Jun 2010 13:46:48 +0000</pubDate>
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Se é preciso existir muros,  que sejam de preferência cobertos de musgo espesso, góticos, úmidos e  solenes, como que saídos de um filme de Tim Burton. Muros de hera,  infiltrações e descascados, menos delimitadores e de alguma forma mais  humanos, mesmo sendo muros. Possa o seu reboco ser bem mole e [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<h3><a rel="nofollow" href="http://consoantesreticentes.blogspot.com/2010/06/muros.html" target="_blank"><span style="color: #000000"><br />
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<div><span style="font-family: courier new">Se é preciso existir muros,  que sejam de preferência cobertos de musgo espesso, góticos, úmidos e  solenes, como que saídos de um filme de Tim Burton. Muros de hera,  infiltrações e descascados, menos delimitadores e de alguma forma mais  humanos, mesmo sendo muros. Possa o seu reboco ser bem mole e  esfarelento, e aceite de bom grado o nome de quem se ama pichado ou em  baixo relevo – o que for mais fácil e menos perigoso, antes que alguém  chegue e transforme a ocorrência em boletim. Que escore o amasso dos  amantes e acolha as lamentações se houver pranto a pôr pra fora, desde  que esse pranto seja sereno e silencioso a ponto de não assustar as  crianças que brincam lá do outro lado. Lá, onde o muro é de outra cor e  testemunha histórias outras. Natural que o muro faça divisas, pois para  isso foi erguido, mas que não cause divisões e sirva mais para proteger  homens, cachorros e roupas no varal  que para demarcar feudos de Mefisto. Não deixe que estraguem o muro  tornando o muro trincheira, com cacos de vidro e arames farpados. O muro  é propriedade do mundo e de ninguém em particular, muros devem ser  muros pelo direito dos muros existirem e mais nada. Se há os que prendem  há também os que são lousas de poema, e é triste que os primeiros sejam  tão menos raros que os segundos. Os muros que se prezam têm buracos de  um lado a outro, são comunicantes para as trocas de receitas, fofocas e  gemidos comprometedores. Mantenha, por favor, esses buracos largos o  bastante para que a vida alheia se devasse e se escancare, fazendo a  delícia dos vizinhos. E para que a maledicência, esse defeito de  fabricação da raça, possa se espalhar insidiosa pelo quarteirão.</p>
<p>©  Direitos Reservados<br />
</span></div>
</div>
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		<title>ÁTOMOS DESEMBESTADOS</title>
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		<pubDate>Sun, 06 Jun 2010 21:33:19 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
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Podem tachar-me de  saudosista, mas existem coisas que o chamado mundo moderno só fez  involuir ao invés de aprimorar. E escrevo isso com as mãos trêmulas, os  olhos saltando das órbitas e a justificada ira dos que se sentem  logrados e cansados de levar gato por lebre. Não é a primeira [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<h3><a rel="nofollow" href="http://consoantesreticentes.blogspot.com/2010/05/atomos-desembestados.html" target="_blank"><span style="color: #000000"><br />
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<div><span style="font-family: courier new">Podem tachar-me de  saudosista, mas existem coisas que o chamado mundo moderno só fez  involuir ao invés de aprimorar. E escrevo isso com as mãos trêmulas, os  olhos saltando das órbitas e a justificada ira dos que se sentem  logrados e cansados de levar gato por lebre. Não é a primeira vez que  isso acontece no semestre, nem provavelmente será a última até que  chegue a primavera por esses meridianos. Mas desta feita as  consequências beiraram o intolerável.</p>
<p>Explico. Ainda anteontem, no meu costumeiro caminho de volta do  trabalho para casa, apeei meu pangaré na venda do Agenorzinho Ulceroso a  fim de repor uns gêneros de primeira necessidade em minha modesta e  desfalcada despensa. Coisa trivial: três quartos de um queijo meia-cura,  um palmo e dois dedos de fumo de rolo, grampos de cabelo para a patroa e  um punhadinho de átomos para distrair a gurizada.</p>
<p>Já em casa, e desembrulhados os  pacotes na mesa da copa, vi que estava tudo nos conformes com os  grampos, o queijo e o fumo. Mas havia algo de muito estranho com os  átomos. Pasmem: os elétrons de um dos ditos cujos giravam ao redor do  núcleo em sentido anti-horário, ou seja, em absoluta não-conformidade  com os dados técnicos informados no manual do fabricante. Ora, na escola  rural aprendi que um elétron que gira ao contrário é energeticamente  desequilibrado e pode provocar uma balbúrdia sem precedentes num lar  pacato e cristão como o meu, com crucifixo na parede da sala e uma pá de  santos espalhados pelos cômodos. Pois foi o que aconteceu. Até meu  cachorro pôs-se a piruetar feito doido em volta do bidê ao estranhar  (com toda razão que um ser irracional pode ser capaz de demonstrar)  aquela aberração zombando da ordem do universo. Não foi nada fácil  assimilar o engodo. Mal comparando, é a mesma coisa que comprar um teco  de Molibdênio com peso atômico 94,95 e te  enfiarem no embornal uma lasca de Zircônio cheirando a Césio estragado.  Não obstante os nêutrons e prótons do referido átomo apresentarem boa  aparência, elétrons enguiçados são pragas mais daninhas que pulgões no  algodoeiro. Ô trem ruim.</p>
<p>O fato é que, minutos após aberto o saquinho pardo do empório, a  roça toda entrou em colapso convulsivo. Os mal-formados átomos foram se  multiplicando em outros ainda mais aleijados estruturalmente, e o  desequilíbrio reinante dentro de casa logo tomou conta do terreirão, da  tulha, do retiro das novilhas e das hortas suspensas de alface – não  necessariamente nesta sequência. Os desastres se sucediam igual uma  manta de crochê que se desmancha com a lã enroscada na pata de um  marreco bêbado. A coisa foi indo até que o redemoinho de anomalias  chegasse ao poço artesiano, quando a mutação atômica mergulhou na água e  a transformou em H18O, uma geleca gosmenta que perfurava o fígado de  quem tentasse matar a sede com ela.</p>
<p>Disse à meia voz aos meus  botões: “Com mil batatas doces de quermesse, se não podemos confiar no  bom funcionamento de um prosaico átomo à venda em qualquer birosca de  arrabalde, que dirá quando precisarmos de uma molécula inteira?”<br />
E olhe que não são raras as ocasiões em que precisamos de moléculas em  bom estado e sempre à mão para qualquer eventualidade, como nas viagens  ao litoral catarinense, ao alvejar roupa no tanque e mesmo nos estouros  de boiada, onde são largamente empregadas para recolher pacificamente o  gado ao seu confinamento.</p>
<p>Ah, meu pai, que saudade dos ioiôs de Neônio e os bilboquês de  Silício. Tempo em que por aqui ainda se amarrava cachorro com linguiça.</p>
<p>©  Direitos Reservados<br />
</span></div>
</div>
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		<title>ZEUS ASSIM O QUIS</title>
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		<pubDate>Sun, 30 May 2010 16:03:24 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
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		<category><![CDATA[barbudo]]></category>
		<category><![CDATA[liricas bulhufas]]></category>
		<category><![CDATA[Zeus]]></category>

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(Pequeno  exercício de escrita automática)
Zeus, num raro  acesso de generosidade, resolveu dar permissão. Sim, o barbudão de pouca  prosa e nenhum riso, imagine. Licença concedida, abrimos a golpe de  faca o compartimento estanque, guardado a segredo de cofre e venerado  feito sudário. De cara um fusca 74 nos esperava além [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<h3><a href="http://consoantesreticentes.blogspot.com/2010/05/zeus-assim-o-quis.html"><span style="color: #000000"><br />
</span></a></h3>
<div><a href="http://4.bp.blogspot.com/_vd69v5m9RqE/S_ex4qAUbMI/AAAAAAAABa0/JTNx5yBYCT8/s1600/zeus.jpg"><img style="margin: 0px auto 10px;width: 213px;height: 320px;text-align: center" src="http://4.bp.blogspot.com/_vd69v5m9RqE/S_ex4qAUbMI/AAAAAAAABa0/JTNx5yBYCT8/s320/zeus.jpg" border="0" alt="" /></a></p>
<div><span style="font-family: courier new"><em><strong>(Pequeno  exercício de escrita automática)</strong></em></p>
<p>Zeus, num raro  acesso de generosidade, resolveu dar permissão. Sim, o barbudão de pouca  prosa e nenhum riso, imagine. Licença concedida, abrimos a golpe de  faca o compartimento estanque, guardado a segredo de cofre e venerado  feito sudário. De cara um fusca 74 nos esperava além de longe, desde  meados de nunca. E esperava inerte qual relógio da matriz velha, com os  dois ponteiros soldados pelo zinabre dos anos, aqueles da antitristeza  das balas de coco geladas, da bola nova cheirando a couro e com a  etiqueta de preço, do chenile do sofá na sala imensa de estar e ser, e  estando lá, permanecer até o findar da tarde e o chegar do sono. A  vizinhança toda em seu rodar de carrossel, natais se anunciando desde  outubro com seus piscas, torresmos defumando vinte alqueires de sertões.  E você lá, branca das parafinas de crisma e de  primeira comunhão, crescendo a cinco centímetros por hora e tomada do  desejo de correr países outros de fronteiras bambas, montada em bicho de  zanga &#8211; belo e premiado produtor de estrume azul, uma coisa quase que  da estimação do mundo de tão lindo que era. Aproveitamos a chance  enquanto Zeus deixava. E Zeus deixou mais um pouquinho, porém não mais  que o estritamente necessário.</p>
<p>© Direitos Reservados</span></div>
</div>
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		<title>SALVE-SE QUEM PUDER</title>
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		<pubDate>Sat, 22 May 2010 03:00:25 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
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		<category><![CDATA[liricas bulhufas]]></category>
		<category><![CDATA[salve quem puder]]></category>

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- Pronto, Centro de  Valorização da Vida do Salva-Vidas – CVVSV. Por favor, seja breve pois  nossas linhas estão congestionadas.
- Tô sem vidas pra salvar. Antes  tivesse cem vidas pra salvar, tá me entendendo?
- Entendo sim. E como  entendo. Você é o décimo sexto que liga hoje Ontem foram trinta e [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<h3><a rel="nofollow" href="http://consoantesreticentes.blogspot.com/2010/05/salve-se-quem-puder.html" target="_blank"><span style="color: #000000"><br />
</span></a></h3>
<div><a rel="nofollow" href="http://1.bp.blogspot.com/_vd69v5m9RqE/S-5vIXTPNHI/AAAAAAAABak/UhjUDztJts0/s1600/salva+vida.jpg" target="_blank"><img style="text-align: center;margin: 0px auto 10px;width: 214px;height: 320px" src="http://1.bp.blogspot.com/_vd69v5m9RqE/S-5vIXTPNHI/AAAAAAAABak/UhjUDztJts0/s320/salva+vida.jpg" border="0" alt="" /></a></p>
<div><span style="font-family: courier new">- Pronto, Centro de  Valorização da Vida do Salva-Vidas – CVVSV. Por favor, seja breve pois  nossas linhas estão congestionadas.<br />
- Tô sem vidas pra salvar. Antes  tivesse cem vidas pra salvar, tá me entendendo?<br />
- Entendo sim. E como  entendo. Você é o décimo sexto que liga hoje Ontem foram trinta e  cinco.<br />
- Ninguém tá precisando ter a vida salva, moça. Mar calmo,  banhistas felizes com Sundown 45 besuntado até no cofrinho, nenhum  desavisado se debatendo na rebentação. Um tédio. Gosto de viver  perigosamente, pra isso escolhi essa vida de salvar a vida dos outros.<br />
-  Relaxe, pense que poderia ser pior. E se tivesse que resgatar dez vovôs  gordos e sem preparo físico se afogando ao mesmo tempo? Daqueles que  levam melancia, torta de sardinha e papagaio pra praia, já pensou?<br />
-  Mas pelo menos eu me sentiria útil, ainda que conseguisse salvar um  gordo só. Bem ou mal estaria honrando o  salário no fim do mês. O duro é ficar tomando sol o dia todo naquela  cadeira em cima da escada. Me sinto um usurpador, um verme sem  serventia, um chupim do orçamento da prefeitura. A senhora, como  contribuinte, não se sente explorada? Por favor, me ajude, faça alguma  coisa.<br />
- Meu amigo, por acaso a culpa é sua se está tudo bem? Você  saberá cumprir o seu dever, caso aconteça alguma coisa. Por que você não  faz um curso de aperfeiçoamento, um módulo mais avançado pra sua  função? Sei lá, ou então abra-se a novas possibilidades de  relacionamento&#8230; uma respiração boca-a-boca com alguém atraente do sexo  oposto, sabe como é, salva-vidas também é gente.<br />
- Sei, sei. Vem ver  as coisas que me aparecem pra salvar, vem ver. Isso quando aparece, né.  A praia aqui é de periferia, minha filha. É a maior relação dentadura  por banhista da América Latina.<br />
- Você também podia pedir  transferência pra algum lugar com mar mais  agitado, tipo aquelas praias de surfistas em Saquarema.<br />
- Mais  alguma alternativa?<br />
- Temos sugerido com frequência a pintura de  paisagens marinhas em aquarela. O único problema é o salva-vidas se  distrair demais com o hobby e não prestar atenção ao serviço.<br />
-  Chega, essa foi sua última chance. Não me convenceu, o buraco no meu  caso é mais embaixo.<br />
- Pelo amor de Deus, mude de ideia. Se não por  você, pelo menos por mim.<br />
- Como assim?<br />
- Nosso índice de reversão  das tentativas de suicídio nos últimos seis meses é de apenas 4,9%.  Caso não consigamos melhorar esta estatística, nossa equipe toda será  demitida. Você não está mesmo querendo salvar vidas? Pois então, sua  oportunidade é agora. Salve a nossa, moço!<br />
- Jura que é verdade? Não  está dizendo isso só pra dar uma levantada na minha autoestima? Este  argumento está me cheirando a script decorado aí da equipe de  atendimento.<br />
- Onde você está no  momento?<br />
- Estou aqui, no meu posto de observação, falando do  celular. Mas com um cano de revólver enfiado no outro ouvido. Tem até um  pessoal lá embaixo olhando desconfiado pra mim.<br />
- Calma, segura a  onda.<br />
- Bom, isso é tudo o que eu queria, se houvesse alguma pra  segurar.<br />
- Moço, olhe pra trás. Guardas-noturnos, ex-boxeadores,  enroladores de bobinas de transformador, mulheres barbadas de circo e  outros suicidas contumazes bem que gostariam de estar no seu lugar, só  aí, de frente pro mar&#8230; considere-se um privilegiado.<br />
- Poupe o seu  latim para um caso menos perdido que o meu. Além do mais, meu crédito  está acabando.<br />
- Me dá seu número que eu ligo!<br />
- Vai dar caixa  postal.</p>
<p>© Direitos Reservados</p>
<p></span></div>
</div>
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